30 de junho de 2017

Mulheres na Aviação: Conversamos com uma estudante de Ciências Aeronáuticas da PUC-GO

Foto: Arquivo Pessoal
Não é mais raro de se ver mulheres na cabine de um avião, nas salas de um aeroclube e etc. Parece mesmo que elas estão ganhando espaço e o machismo está sendo deixado de lado na aviação. A alguns anos atrás só víamos homens comandando essas incríveis máquinas, mas hoje, principalmente na GOL e Azul, já é possível ver a presença de mulheres no comando.
Conversamos com Jeisse Rocha, estudante de 25 anos e Presidente do Centro Acadêmico do curso de Ciências Aeronáuticas (CAER) da PUC-GO.

Quando começou o seu amor pela aviação? Eu moro muito perto do aeroporto e desde criança tive o privilégio de ver as aeronaves fazendo aproximações finais para pouso bem perto de minha casa e este fato sempre me proporcionou uma singela sensação de ter contato com a aviação, ainda que de forma indireta. Lembro-me de acordar pelas manhãs aos sons do ‘ronco dos motores’ das aeronaves. Eu amava, pois me imaginava fazendo aquilo, o que mais tarde vim a saber que era um teste de motor, a aeronave acelerava e diminuía a potência repetidas vezes. Aquilo era motivação para mim, quando as aeronaves de porte maior aceleravam para efetuar decolagem, portas e janelas tremiam, quem estivesse no telefone tinha de parar a conversa a fim de admirar a passagem de um gigante do ar, há tempos atrás o ruído era ‘assustador’ para muitos e eu, é claro, vibrava de alegria com aquilo tudo (risos). Passei o meu ensino médio inteiro estudando e fazendo cursinho só para ter o privilégio de um dia cursar uma universidade de aviação, sempre pesquisava as universidades, escolas de formação de pilotos e aeroclubes aqui de minha cidade, também outras pelo Brasil, desta pesquisa comecei a conhecer muitas pessoas do meio, inclusive pilotos, acompanhava alguns deles pelas redes sociais e sempre buscava fazer o possível para ser como eles.

Você estuda, faz algum curso em prol de realizar o seu objetivo na aviação? Sim, atualmente eu curso Ciências Aeronáuticas na Pontifícia Universidade Católica de Goiás PUC-GO e estou indo para o 7º período.

Como é o curso e qual a significância que ele tem em sua vida? O Curso de Ciências Aeronáuticas (CAER) aqui da PUC-GO é um curso de bacharelado com a duração de 3 anos e 6 meses cujo objetivo principal é formar pilotos de linha aérea. Porém, desde 2017/01 sua grade foi alterada e o curso passou a ter 8 períodos, 4 anos no total possibilitando uma formação dupla: Ciências Aeronáuticas/Piloto de Linha Aérea (colação de grau  atribuída somente aos que possuem todas as licenças de voo) e Gestão em Aviação Civil (colação de grau atribuída a todos que concluíram o curso, independente de suas horas de voo) Esta possibilidade de formação dupla me motivou de tal forma que, como graduanda, decido permanecer mais alguns meses na universidade a fim de obter este diploma, uma vez que ainda não tenho nenhuma hora de voo e com a Gestão em meu currículo creio que terei mais chances de conseguir um emprego e assim então, pagar minhas horas de voo. Certamente estarei com uma melhor qualificação, já que venho crescendo como aluna e pessoa através das oportunidades que venho tendo durante minha jornada de estudos. Sou grata a Deus por tudo o que vivi na PUC, ela foi e continua sendo uma grande escola.

Conte-nos um pouco mais como foi sua trajetória de estudante na PUC-GO. Eu demorei cinco anos para começar o curso de Ciências Aeronáuticas, neste período estive estudando coisas indiretamente relacionadas com a aviação, depois fiz dois cursos de idiomas, mas a faculdade mesmo só foi possível de ser realizada em Agosto de 2014. Assim que passei no vestibular, fui orientada a fazer alguns exames a fim de tirar o CMA (Certificado Médico Aeronáutico), um procedimento compulsório a todos os profissionais dispostos a serem pilotos, cuja finalidade é de averiguar se o candidato está apto ou não para realizar voos. Após dois dias realizando os exames fui aprovada, tendo assim minha primeira conquista. Em meu primeiro dia de aula, sentei na fileira da frente, no canto da janela (talvez assim pudesse ver algum avião), era tudo novidade para mim, a sala era espaçosa e organizada, os professores falavam de seus voos e nos faziam dar boas risadas, além de nos ensinar muito sobre as disciplinas. O legal é que eu já conhecia muitos veteranos devido ao fato de seguir muitos pelas redes sociais e por sempre me manter atualizada sobre os eventos que ocorriam na universidade. Foi então que algo inesperado aconteceu: eu recebi uma mensagem, estando ainda no 1º período de uma amiga veterana que trabalhava em um dos laboratórios da PUC, me lembro até hoje da mensagem que dizia: “(...) eu trabalho aqui no laboratório do CAER onde fazemos a montagem e manutenção na oficina do simulador de voo do A320 e temos uma vaga para alguém do 1º período e pensei que a pessoa ideal para esta vaga é você (...)” Eu não estava acreditando no que os meus olhos liam! Fiquei lisonjeada, aceitei, é claro! Ainda não sabia, mas foi só o começo de minha história em ser moldada ao ‘caráter’ da aviação, lá eu aprenderia a montar uma avião para simulação de voo, seu funcionamento bem como em participar dos voos nas feiras e eventos que o CAER participava.

Foto: Acervo Pessoal

Inicialmente, o que parecia apenas um convite simples de minha colega veterana, se tornou para mim motivo de muita alegria, questão que é motivo de minha gratidão até os dias de hoje, que sempre faço menção em cada agradecimento de fim de semestre.

Você disse que foi moldada ao ‘caráter’ da aviação. O que quis dizer com isso? Existe algo específico que os pilotos tem de diferente das outras profissões? Quando eu falo ‘caráter me refiro diretamente ao perfil que o profissional aviador deve desenvolver durante os seus estudos, por exemplo, ser proativo, que é justamente prever as necessidades que determinada situação demanda sem ser necessariamente solicitado para fazer, é ter atitude, é agir frente a algo que requer sua atenção. O fator timidez e a auto-estima baixa me limitavam demais, trabalhar na oficina de montagem do simulador foi a motivação que eu estava precisando. Porém, não é que o piloto tem especificidades além das demais profissões mas que ele faz uso de todos os recursos que possam reforçar o seu poder de decidir e agir em prol de algo. Se formos reparar bem, existem convenções que a aviação adotou da marinha e assim por diante, as profissões se complementam e os profissionais também, estamos em constante estado e aprender uns com os outros. Aquilo que traz bom resultado deve ser sempre copiado, é a típica “invejinha branca” (risos).

Você trabalha em algum outro projeto além da oficina de montagem do simulador de voo do Airbus A320? Sim, atualmente sou a presidente do Centro Acadêmico Santos Dumont (CASD) do CAER. Mas comecei como vice-secretária na gestão 2015/02 a 2016/01. Aprendi muito, acompanhei os projetos, fiz sugestões e contribuí com a equipe. Fui monitora de Teoria de Voo 3 vezes, duas vezes para Piloto Privado e uma vez para Piloto Comercial e também atuei como professora particular de inglês da aviação para os meus amigos de classe.

Como tem sido o seu trabalho como presidente? De que forma você lida com os seus colegas em um meio cuja maioria é composta por homens?
Bom, como presidente do CASD eu procuro dizer que sou aluna como os alunos, a única diferença é que eu apanho mais (risos). Já comecei a gestão sabendo que a presidência é um cargo de exposição, mas, uma vez que eu aceitei o desafio era isso e pronto, não tinha mais volta, o jeito era marchar e fazer dar certo. Acredito que o primordial não me faltou: Deus. Minha família e alguns poucos mas bons amigos foram motivos de força para que eu pudesse permanecer nesta difícil porém linda missão. Eu sabia o que estava por vir, já tinha acompanhado a gestão anterior, meu antecessor passou por muitos momentos difíceis: reuniões, projetos, ofícios, dormir tarde, acordar cedo, etc, certamente não era o que eu queria, até mesmo porque minha vida de vice-secretária estava boa demais, eu não queria mudar aquilo. Lembro-me de uma ocasião em que consegui convidar uma comandante internacional para falar um pouco mais como é a profissional de uma aeronauta em nosso Simpósio de Ciências Aeronáutica, que ocorre todo ano em Outubro como forma de comemorar o dia do Aviador. Foi uma experiência muito rica, eu fiz a parte boa, levei para almoçar, busquei e levei ao aeroporto juntamente com o vice e só. Nada de assinar contratos, nada de pagar a conta, nada de dor de cabeça, tudo na mais perfeita paz, já como presidente a conversa foi outra (risos). Mas acredito que fui bem, pelo menos foi o que muitos me disseram. Consegui convidar 3 pilotos mulheres para o Simpósio em que eu estava de fato organizando. Cada uma abordou um tema importante ao público que foi composto por alunos, egressos e público em geral, teve uma mesa redonda, homenagens e alguns brindes aos participantes e palestrantes, bem como uma singela homenagem a eles no final do evento.

Foto: Acervo pessoal
Foto: Acervo pessoal

Outra questão que me emocionou muito e me deixou feliz durante à presidência foi uma homenagem que recebi no Plenário da Câmara Municipal de Goiânia, um Diploma de Honra ao Mérito devido ao Movimento Estudantil, pela luta e defesa dos direitos dos estudantes. Hoje, como representante de todos os alunos do curso de Ciências Aeronáuticas eu posso dizer que esta homenagem não é mérito somente meu, mas de todos aqueles que de alguma forma me motivaram a chegar até aqui, que acreditaram em mim quando nem eu mesma o fiz, sendo minha família o agente de principal importância. Muitos não me referiam como uma aluna modelo devido as “estranhas conversações” de querer ser piloto, “isso não é coisa de gente normal”, etc e etc. Acaba que eles tinham razão, a aviação não é mesmo coisa para “gente normal”, mas somente para os escolhidos e para aqueles que realmente sentem amor por voar, pois estes sim, são os que voam.
Foto: Acervo pessoal
Sobre lidar com a quantidade de meninos no curso, eu não vejo dificuldade, uma coisa que acho linda no curso é que nos tornamos uma grande família e eles são meus irmãos. O índice de meninas que ingressam no curso está aumentando também, na minha época éramos um total de sete, sem contar com a quantidade de meninas em outros períodos, havia um número considerável delas. Com relação aos calouros, há um apreço especial, é como se fossem meus filhinhos, tenho todo o cuidado do mundo. Costumo deixar uma vasilha de vidro com balinhas na sala do Centro Acadêmico, assim todos que visitam recebem um brinde como forma de demonstrar o zelo que tenho pela vida de cada um, procuro sempre tratá-los com respeito e atenção.

Foto: Acervo pessoal
Como você se sente frente a todas estas conquistas até agora? Me sinto cuidado por Deus. Apesar dos erros e defeitos que possuo, sinto que Ele permanece proporcionando novas chances de aprender e passar o conhecimento que venho conquistando em cada período. Minha mãe e eu sempre conversamos a respeito da aviação e ela até sabe o nome de alguns aviões (risos). O meu pai e meus irmãos tiveram uma participação muito especial em tudo o que fiz até aqui. Minha irmã primogênita, por exemplo, estuda Administração, mas era ela quem ficava em minha sala do Centro Acadêmico, conversando e atendendo os alunos enquanto eu não estava. Foi minha família que me ajudou a organizar o Simpósio e tudo o mais que precisei durante os meus trabalhos como presidente, sou imensamente grata. Fui muito bem atendida pelo Comandante Raul Francé Monteiro, Coordenador do curso de Ciências Aeronáuticas aqui da PUC-GO e que ao longo de minha gestão, foi se tornando um amigo, quem me passou grande bagagem de conhecimento que irei levar para à vida.
Foto: Acervo Pessoal
Para encerrar nossa entrevista, o que você tem a dizer para todos os leitores, pessoas da aviação e demais profissionais? Se existe dentro de você alguma força capaz de te motivar a fazer algum curso ou em tomar alguma atitude em favor de seus objetivos, por favor, não deixe de fazê-lo. Corra atrás mesmo, e eu não me coloco fora desta exemplificação. A luta não acabou, por mais que tenha sido especial algumas situações em que vivi, ainda não é o fim, ainda temos de subir todos os degraus, vencendo os desafios e contar aos demais que independente de nossas dores, Deus sempre vai compensando-as e trazendo-nos à esperança que muitas vezes se perde pelo caminho. Talvez ser piloto pode soar mais fácil que ser um astronauta, um médico, um cirurgião, mas certamente, as dificuldades que cada trajetória apresenta foram criadas para vencer somente aqueles que realmente nasceram com o dom de conquistar cada uma delas. Você vai se permitir conseguir chegar ao fim e levar à medalha? A resposta está condicionada a ti mesmo, a mim e a todos nós. Como na vida sempre temos alguém que admiramos, com minha mãe sempre foi o mesmo, onde ela trabalhou em uma indústria do segmento farmacêutico, havia uma pessoa muito especial ao qual ela admirava e tinha como espelho de profissional, a psicóloga de RH Fabiana Oliveira Guimarães ao qual temos respeito.

5 comentários:

Rafael Ruben disse...

Muito lindo!
Muito Edificante!
Parabéns, Jeisse!

Jeisse Rocha disse...

Muito obrigada meu grande amigo. Toda sorte de bênçãos em sua vida 😃 Bons voos...✈️

Rafael Ruben disse...

Amém! Muito obrigado, querida amiga.

Felipe Diesel disse...

Parabéns Jeisse! Muito bom, sábias palavras.

Jeisse Rocha disse...

Obrigada Felipe, meu Vice-presidente de confiança. Voe bem por onde for...